O que é Numsócorpo?
Quando fui convidado para esta tarefa curatorial, no Ateliê da Artista, no seu computador e, depois, diante dos copiões e provas, deparava-me com um continuum que explora pela via da lente fotográfica um registro de grafias das suas filhas no corpo paterno, todos eles fazendo “umsócorpo”.
Como será isto?
Ao que me falam estas imagens?
Ao que convocam?
Fusão de corpos e corpos em superfícies “envolvidas-envolventes” e apresentados como imagens.
Logo, não podia mais deixar de “ver-pensar” a pulsão escópica, na sua definição de “o sujeito encontra o mundo como espetáculo que o possui”, na total“concupiscência dos olhos”, no dizer de Santo Agostinho.
O pai deixa de ser pai para ser tomado como superfície de inscrição pelas filhas e zona de registro por parte da mãe, imperialismo feminino.
Ao mesmo tempo, inexistente, ele cumpre a função de ser lugar de ligação – a função paterna e o seu papel de Ligar - entre mãe e filhas… passagens entre olhares, mãos e pés… passagens entre lápis, crayon, giz, caneta… do traço ao olho, do risco ao recorte… prazeres em explorar este corpo superfície de inscrição e massas…
Mas não há papel em branco que já não seja o desafio… nada de óbvio… o desafio de preencher… muito antes pelo contrário… o desafio de tomar para si este terreno e nele inscrever algo significante… então, a superfície possui uma densidade… daquele alvo que faz a ligação… de pura pele ao pai real, ele volta, para o exercício-excitação de suas funções e ser um elo…
Um Rei Lear e sua descendência….correndo o risco de ser engolido…
Assim, numsócorpo me traz de volta aos Nomes-do-Pai.
Nomes-do-Pai
Lacan afirma que o Pai se manifesta de muitos modos e em muitos nomes.
Isto é Bíblico.
É uma invenção judaico-cristã que se evoca aqui, diante desta experimentação contemporânea e arcaica, saída da temporalidade comum, adensamento de um tempo-sem-tempo, lógica inconsciente.
Havia um Deus antes de Deus. Um Deus sacrificial, orgiástico, dionisíaco e pagão – deus das fusões e do Gozo, deus da devoração canibalística, [baba]antropofágica.
A invenção hebraica do Deus monoteísta – Deus dos cristãos – é o surgimento de um laço ou ligação que visa o afastamento ou o corte com este Deus antes de Deus.
Aqui começa a operação do Pai e seus Nomes.
Saída do mutismo para a multiplicação dos nomes no exercício de cada uma de suas funções.
Saída de cena do Devorador para dar entrada Àquele que faz prometer e esperar, crêr, desejar, mesmo diante de toda a dor de existir.
Mas acima de tudo, entrada em cena de um Deus que se sacrifica para manter o elo entre os seus.
Agora, ele impede que o homem sacrifique sua descendência nos ritos da terra, misturando sangue e terra.
E Ele aponta para esta animalidade primeira e ensina a metaforizar – oferecer um símbolo em lugar de uma vida. Para isto ele se multiplica, ele se torna um cortejo de símbolos, as diferentes metáforas da função do Pai.
Toda religiosidade exige um sacrifício, uma comunhão dominical, um evangelho multiplicado, palavras de renúncia e de milagres.
Assim, quando volto destas fotografias lembro das funções pré-modernas da imagem, do que me ensinaram os historiadores da arte do período Medievo, para encontrar um modo de reunir e crucificar, dar nomes e organizar conjuntos, depurar, parecia isto o que se me convocava. Assim, uma idéia de curar-a-dorapontou um caminho. E eis o que apresentamos agora, numa outra Ligação, a de curar-a-dor de existir com uma certa arte.
Marcio Pizarro Noronha, 2009
antropólogo, historiador e teórico da arte, psicanalista, interartista
professor e pesquisador da UFG, PPGHistória – FH e PPGMúsica –EMAC
NUMSÓCORPO
As fotografias apresentadas são registros de ações cotidianas, íntimas e lúdicas que acontecem desde muito tempo nas brincadeiras entre PAI, FILHAS E EU.
Minha produção não envolve apenas a imagem, ou seja, a representação de algo, mas existem elementos que estabelecem uma passagem da imagem para a relação desta com o espaço. Nessas fotografias, trago um corpo, ou vários em um – FUSÃO DE CORPOS -, numa paisagem cotidiana, rotineira. Uma pele historiada, marcada pelos registros de brincadeiras, contos, amizades, afetividades, intimidades e memórias coletivas.
Fazer esse registro da pele desenhada, marcada, ou seja, fechar-se na pele na superfície se dá por entender que através da pele e nela encontramos todos os outros sentidos. Serres me fez entender isso: “nosso corpo se cobre de pele, fecha-se sob ela, ela se abre para os sentidos…” então tudo passa pelo tato, pela superfície que é a pele. Caminhos percorridos nos escuros, reconhecimento dos corpos perdido, os arrepios. A texturização da pele, a memória vivida, os desgastes, as marcas. A pele é a ponte que liga os sentidos o suporte dos sentidos, o elo de ligação dos prazeres nas atividades mais banais de uma convivência íntima revelada e desvelada para uma troca de sentidos com o outro. A pele, para Serres, recebe todos os sentidos juntos, é como se a pele diluísse os sentidos por todo o corpo. Nesse sentido, as fotografias expostas vêm contribuir para essa diluição dos sentidos. Trabalhando com o registro da pele, consigo o corpo como o todo, formas indecisas para quem olha, volumes corporais fragmentados em forma, pele, tato, intimidade. Um corpo que se comunica, se transforma, modifica o meio.
Cíntia Guimarães, 2009
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