Exposição Corpos Percursos de Cíntia Guimarães
Este trabalho é um trecho de uma história e um instante no registro de um processo. A perspectiva adotada pela artista-pesquisadora Cíntia Guimarães é a de traçar um caminho na direção da Estética Relacional (Bourriaud).
O campo relacional possui uma grande tradição nas formas do pensamento antropológico clássico. Marcel Mauss, Bronislaw Malinowski e Claude Lévi-Strauss, para ficar com os mais conhecidos, já estudaram estas formas de economia do simbólico e seus sistemas de trocas. A perspectiva geral é a de que um presente dado só aumenta mais o ciclo de poder do próprio doador. Assim, o objeto passa a ter uma função mágica e conversacional, uma ponte entre sujeitos e um motivo para o estabelecimento de uma conversação acerca das coisas do mundo, do entorno, das experiências, da vida cotidiana.
Nesta perspectiva relacional, não estamos falando exatamente de formas da interatividade, nem de uma comunicação de idéias através de objetos, incluindo agente e receptor. Estamos falando da instalação de circuitos de compromissos entre artista, obra e seus fruidores.
A importante exposição TOUCH (Curadoria de Nicolas Bourriaud) reinstala estas questões – marcas das formas artísticas dos anos 1960 e 1970 – no interior da produção da arte contemporânea e nos modos como esta se apresenta ao público, detendo-se em investigar quais seriam os novos modos de conecção entre o público e o artista.
Na ampliação evidente da esfera comunicacional – a partir das novas tecnologias – a arte passa a organizar-se num intervalo entre as transformações do mundo da comunicação, das formas científicas e, de seus desdobramentos nos modelos possíveis de interação social que estes equipamentos tornam-se geradores e responsáveis.
O que a Estética Relacional procura é justamente os pontos de transmissão da idéia de arte no interior das vidas comuns, as soluções e as formas artísticas apresentadas aos olhos do público a partir de sua própria experimentação. O acompanhar da existência é tarefa antropológica – etnográfica – que funciona como o modelo dessa reflexão acerca da arte. O artista é o público.
Por outro lado, há uma tarefa do artista propriamente dito – daquele que afigura sua identidade social no interior do campo das relações institucionais, mercadológicas, etc. – e esta consiste em olhar para o funcionamento do mundo e encontrar ali as suas lógicas estéticas.
Descobrir a arte em gestos banais.
Descobrir a arte nos registros da existência.
Uma tarefa deveras difícil e que requer uma sensibilidade à estética dos acontecimentos.
Ser capaz de acompanhar a mágica da feitura de um café passado.
Ser capaz de escutar as mudanças de um corpo.
E, por vezes, proporcionar espaços, zonas, instalações, lugares onde se possa reencenar o vivido. E apreender dele a sua dimensão estética.
Estas fotografias são o primeiro passo na direção da construção deste experimento.
Elas procuram oferecer aos artistas, das quais foram colhidas as imagens – invasivas, por vezes – de corpos à procura de estados que sustentassem qualitativamente a produção do seu próprio espetáculo – performance, teatro, vídeo, fotografia, registros.
São fotografias que capturam alguns instantâneos de uma busca.
Para os artistas, esta busca resulta sempre em longas pesquisas, em jogos de tentativa-e-erro, desacertos, descompassos.
O que a pesquisadora e também artista quer ressaltar são pequenos instantes em que o acontecido ultrapassa em muito o que é vivido-lembrado, tomando um rumo particular, mostrando qualidades invisíveis feitas visíveis, por conta de um processo de acúmulo de registros e de seu posterior congelamento.
Estas imagens são um oferecimento – um dom – uma vontade de devolver num patamar diferenciado aquilo que foi colhido e vorazmente consumido pelo olhar da artista enquanto convivia com seus colegas – tomados vez por outra enquanto verdadeiros objetos de uma pesquisa plástica.
Esta primeira devolução é o presente dado ao grupo.
É a provocação de Cíntia Guimarães, solicitando novas respostas.
Eis um caminho.
Muitas perguntas.
E um desafio que se abre agora a outra relação, noutro círculo de troca e de conversação.
Novas recepções acontecerão.
O que teremos?
Depois desta colheita de imagens, novo tempo de produção.”
Marcio Pizarro,
Curador e Orientador da Pesquisa Visual, 2004.
Corpos Percursos, de Cíntia Guimarães
A exposição Corpos Percursos traz um recorte da pesquisa que tem como título provisório “120DIAS”, integrando a pesquisa no campo das Poéticas Visuais, no curso de Mestrado em Cultura Visual (FAV-UFG), sob orientação do Prof. Dr. Marcio Pizarro. A proposta consiste na realização de uma experiência de troca e convivência com um grupo de outros artistas, no campo das artes do corpo (teatro-dança-performance visual e audiovisual), durante um período de 120 dias, com intervalos regulares e locais marcados para tais eventos.
A exposição traz uma parte do que foi e é vivido no espaço, no qual aconteceram os encontros com o grupo Castra Doloris. O que se pretende é, neste momento da pesquisa, experimentar as relações que o público pode sustentar, a partir do contato com as imagens que se referem aos corpos e ao espaço, gerando novas relações, percursos, ensaios fotográficos, audiovisuais, corporais e cênicos. São diferentes momentos de ensaios proporcionando momentos ricos de discussões, desentendimentos, direções, concentrações, desconcentrações, fome, ansiedades, desejos, revelações, apaixonamentos, caminhos, labirintos, cansaços, acordos, trocas, olhares, descobertas, relações carnais, espaciais, sonoras, cromáticas. As imagens colhidas e registradas em forma de fotografia visual, audiovisual e de um diário textual são realizadas a partir dos encontros, ensaios e discussões feitos pelo grupo. A minha função é observar, registrar e, ao mesmo tempo, participar. Desde a entrada do local até a sala, os corpos, os objetos, as falas, os acontecimentos, enfim, tudo o que se passa dentro da sala é registrado. Sou um outro que se integra ao grupo e fico, tal como nomeia o antropólogo Luiz E. Achutti (UFRGS – IA), com um olhar de viajante, onde tudo se vê e se registra.
Em um dos momentos em que estava com o grupo fotografando, um integrante do grupo diz que se sentiu visto, olhado e até para mexer pensa em como deve ficar seu corpo. Sinto que os fortifico, os torno vistos por outros – como sustenta Pizarro, nas artes do corpo estamos diante de um palco giratório, onde todo o artista grita de uma posição subjetiva, “Veja-me aqui!”.
Ao final desses encontros haverá propostas de trocas com o grupo e uma produção de uma fusão entre as imagens e o áudio coletado, visando construir narrativas audiovisuais e visuais. Os diários deverão resultar na produção de um espaço instalacional destinado à vivência / convivência para grupos de recepção abrangentes.
Existe uma relação de troca entre o grupo e a artista-pesquisadora e é neste domínio que se pensa e se constrói esta pesquisa, envolvendo o visitante numa mistura e ao mesmo tempo nas trocas de sensações, envolvimentos e relações humanas entre obra, artista e público. Como disse Nicolas Bourriaud, arte é um espaço de imagem, objetos e parte humana.
Cíntia Guimarães, 2004
Para ver as imagens clique www.loftdaimagem.com.br